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domingo, 9 de março de 2014

16. Natal entre casais

(por Raquel Lisboa)






O Natal é sem dúvida, na opinião de muitas pessoas, ocasião de fraternidade e amor... Todavia, eu contesto esse parecer. Não o faço por causa do Papai Noel, pobre velhinho - digo, rico velhinho, que dá presentes para todas as crianças - mas por outro motivo.
Imagine você que no natal passado (2013) estive com alguns casais, visto que toda  a minha família viajou. Vou apresentar-lhe:

Sofia e Marcos
Tata e Gil
Drika e Baixinho
Lígia e Ceará
Meu bofe e eu

Bem... Todos esses casais estavam sem parentes e sem lugar para ir. Então nos reunimos em casa. Na véspera de Natal, houve uma festinha entre amigos com música e bebida para quem gosta. Enquanto todos bebiam e dançavam, eu fazia algo de que gosto muito: Comer. Sim senhor, comi muitooooooo. Nada de esperar meia noite, fui a primeira a assaltar a sobremesa. Quem bulinou as gelatinas, mousses, bolos e tortas doces e colocou a culpa nas crianças? Sim, euzinha! Descobri que além de dar gasto e amor aos pais, as crianças também servem para levar a culpa, quando nós os adultos fazemos as traquinagens...
Fiz e não nego. Até porque o espírito natalino não deixaria os pais castigarem os pestinhas, digo, os anjinhos...

Tudo estava bem. Para mim nada ficaria melhor. Barriga cheia, roupa nova e um bofe para elogiar. Os outros casais pareciam felizes. A Sofia dançava alegremente enquanto Marcos a admirava. Gil chamou Tata para dormir, mas ela resolveu ficar e, com um sorriso, ele foi para casa descansar. Drika e Baixinho, permaneceram na festa durante a noite inteira. Lígia, cansada, chamou o Ceará para dormir, mas ele também resolveu ficar.

Meu bofe e eu fomos dormir, afinal de contas eu já estava com a barriga cheia de doces, churrasco e refrigerante, nada mais me interessava ali.
7:00 hs da manhã, ouvimos uma discussão no quintal. Era a Drika e o Baixinho que estavam discutindo.
Drika é uma mulher cinquentona, mas com a alma juvenil. Ela é do tipo que se veste bem e que encara a idade como algo que serve apenas para torná-la mais bonita e madura. Por outro lado, o seu marido Baixinho tem 29 anos e a alma mais velha do que a de Dom Pedro I... Sim, ele é exatamente às antigas, ciumento, possessivo, machista, etc.

Tudo começou porque a Drika resolveu levar o som embora. Baixinho queria continuar bebendo e escondeu as chaves de casa para que a mulher permanecesse na festa. O filho dela de 30 anos, Lezinho, intrometeu-se:
- Ei, Baixinho, por que você não devolve a chave de casa para a minha mãe?
- Porque ela pega o carro e se "pica" no mundo. Da última vez que ela sumiu, eu liguei no celular dela e um homem atendeu... - respondeu Baixinho, bêbado.
- Você tá chamando a minha mãe de vagabunda? - perguntou Lezinho, igualmente ébrio e alterado.
- Não... Eu não disse isso... Eu só to dizendo que uma vez eu liguei prá ela e um "macho" atendeu...

O que, a meu ver, é a mesma coisa. Depois de muita gritaria e confusão, os que ficaram durante a noite retornaram para suas casas.
9 horas da manhã, o meu digníssimo bofe resolveu lavar o carro. A nossa casa fica ao lado da casa da Drika e meu marido percebeu quando duas testemunhas de Jeová bateram palmas no portão deles. Sem críticas a religião, nós sabemos que nem todo mundo gosta de atender essas pessoas, pelo fato de estarem sempre ocupadas. O que não foi o caso de Baixinho que, além de atendê-las completamente sonolento, ainda as recebeu com um sorriso:
- Que bom que vocês vieram...
As testemunhas, felizes por serem bem atendidas, começaram a falar do evangelho. Cinco minutos se passaram, Baixinho escorando-se para não cair, disse:
- Foi bom vocês terem vindo, mas me dão licença que vou dormir um pouquinho...
As moças saíram cabisbaixas. 

Meio dia, hora do almoço. Todos os casais que estavam juntos e felizes na noite anterior, apareceram sem seus respectivos cônjuges: Sofia, estava sem Marcos. Ela disse que ele ficou com ciúmes ao vê-la dançando. Minutos depois, Tata apareceu sem o Gil, devido ao fato de ele ter ido dormir sozinho e ela ter ficado na festa. Por esse mesmo motivo, Ceará chegou sem a Lígia. Ela não gostou nada por ter ido para casa e ele permanecer.
Depois, chegou a Drika, sem o Baixinho...


Todos os meio casais me olharam como se perguntassem o que eu achava daquela situação. Então eu disse:
- Sabe de uma coisa? - todos permaneciam em silêncio, esperando uma palavra amiga. Então, prossegui:
- Eu acho que algo está errado... Não é possível todos os casais brigarem de uma só vez e somente meu bofe e eu estarmos de bem... Para ficarmos todos iguais, acho que vou brigar também! - E dirigindo a meu marido, continuei:
-Mor, você ronca como um trator, fala mais que o homem da cobra, é ranzinza, melquetrefe e barrigudo...

Todos sorriram. Meu marido defendeu-se:
-Ah, é? E você é branquela, falastrona, comilona, gulosa e metida, mas é a mulher que eu amo!
- Também te amo, bobão! - disse, dando-lhe um beijo na bochecha e caindo em seus braços.
Fomos aplaudidos pelos meio casais que seguiram cada qual para a sua casa, em busca de seu par!

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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

15. Conto: Geraldinho, o homem feliz!

(por Raquel Lisboa)


Sr Geraldo era um homem baixinho e meio corcunda devido aos excessivos esforços que fizera na juventude quando trabalhava na roça.

galinhasEita, homem engraçado e feliz! Se chovia, ficava contente... Se fazia calor, também ficava... Se fizesse frio era melhor ainda, porque poderia passar mais de uma semana sem tomar banho!

O caso é que como ele era aposentado e não tinha nada para fazer, vivia arrumando “moda” para ocupar o tempo, pois não suportava ficar parado.

 Certa vez, ele comprou uma dúzia de galinhas caipira para criar no quintal da casa. O quintal era grande, mas ocupado por sete famílias (entre filhos e inquilinos).

Era gozado como as pessoas “de fora” se comportavam ao entrar no quintal, pois a maioria imagina que os anfitriões tenham um cachorro ou um gato de estimação, mas galinhas?

E as bichinhas recebiam os visitantes na maior alegria! Era um tal de có, có, có por todos os lados! Muitas vezes elas até presenteavam os sapatos com aquela pasta desagradável que todos sabem muito bem o que é.
Eu mesma já pisei em várias destas feitas por cachorro, mas de galinha caipira dentro de uma cidade, só mesmo na casa do Sr. Geraldo.

 Lembro-me que um dia, ao chegar a casa do velho senhor, o vi tristinho e murmurando:
- A gente cuida dos filhos com carinho, prá depois eles crescerem e mandar na gente!

Eu, fiquei brava. "Ai, ai, ai, se algum filho do Sr Geraldo o desrespeitou, vai ouvir "poucas e boas", pensei. 
Condoída com toda aquela tristeza, perguntei:
- O que aconteceu, Sr Geraldo? Parece que o senhor está um pouco “aperreado”? - ( gosto de falar nordestinês de vez em quando, mas sou paulista) – O que fizeram com o senhor?

- Os meninos não querem deixar eu fazer o que eu quero! Trabalhei mais de cinquenta anos na roça e blá, blá, blá.... ( Sabe como é, né? Não me diga que você não conhece ninguém assim?)
Eu estava quase chorando ao ouvir a trajetória de toda a sua sofrida vida... ( Afinal de contas para quem não sabe, o sinônimo de escritor é sensível). Tudo bem... Sou chorona, mesmo... E daí?

Duas horas depois, eu até tinha me esquecido o que precisava fazer por ali e não ousava interrompe-lo porque o pobrezinho estava tão triste de fazer dó. De repente, o velhinho para e respira e nesse exato momento,eu perguntei: ( senão teria ficado por lá a semana inteira, ouvindo os seus desabafos)

- Mas afinal de contas o que seus filhos não deixam o senhor fazer? - interroguei meio alterada, pois se algum deles lhe faltasse com respeito, ía se ver comigo, ah, se ía...

Ao enxugar as lágrimas com um lenço, o senhorzinho respondeu:
-Imagine que eles não querem me deixar comprar uma vaca para fazer companhia prás galinha????

Não ri. (Tudo bem, eu ri só um pouquinho disfarçadamente porque ele estava perto, né? Quando ele virou as costas gargalhei, mesmo!)



Continua.
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Sr Geraldo, Dona Anita e meu
bebê João Victor

terça-feira, 5 de novembro de 2013

14. Traição traiçoeira

Falando sério... 

(por Raquel Lisboa)


          Traição é uma das muitas coisas de que não gosto. E para trair é muito fácil. Basta ninguém se compreender por qualquer motivo. É nessa hora que aparece o colega de trabalho bonitão, dizendo para a mulher casada o quanto ela é gata e a amiga “gostosona”, falar para o homem comprometido que ele fica bem de azul, por exemplo.


         Pronto. Por um momento as pessoas se esquecem de uma vida inteira e de tudo o que passaram juntos, inclusive dos bons momentos. Falta sinceridade para dizer:
-Não dá mais...
Porque é muito mais cômodo conciliar dois relacionamentos, do que abrir mão da estabilidade do matrimônio.

          Vou lhes contar uma história contada pela minha avó.
Isso aconteceu na Bahia, no ano de mil novecentos e não me lembro... Firmino. Esse era o nome do rapaz.  Homem direito, trabalhador e honesto. Trabalhava duro na cidade, fazia horas extras. Tudo o que ele mais queria era comprar uma casinha para sua família.

          Era casado e pai de dois filhos, Francisco e Juvenal. Apaixonado por futebol e pela sua mulher Joana, levava a vida com simplicidade e encontrava nas pequenas coisas motivos para sorrir.

          O tempo passou e as pessoas mais próximas de Firmino notaram que ele estava triste. Já não trazia o mesmo sorriso de outrora e andava impaciente nos últimos dias. Irritava-se facilmente com as crianças e com as pessoas.

          É... Realmente, nosso amigo estava com um sério problema. Ele trabalhava muito. Com sacrifícios comprou e mobiliou uma bela casa, até carro adquiriu com dificuldades. Sua mesa era farta, andava sempre arrumado e usava perfumes de boa qualidade. Sua família era um encanto, as crianças sempre engomadas pareciam ricas. A mulher usava sempre roupas de última moda e tinha os melhores calçados.

          Só uma coisa faltava para Firmino... O amor de Joana. Como pode uma mulher que não trabalhava fora, estar sempre indisposta para o marido? Aquilo só podia ser doença ruim.
O pobre Firmino rezava todas as noites, não queria que sua doce Joana morresse e o deixasse. Até uma mocinha para ajudá-la nos afazeres domésticos, contratou.

         Quando disse que a levaria a um médico, a mulher melhorou e passou a corresponder ao marido com uma maior frequência. De quinze em quinze dias.
Firmino não gostava de comentar essas coisas com os outros, mas seu pai o conhecia bem e indagou:

-Filho? Podemos conversar um instante?
-Claro painho...
-O que está acontecendo com você, hein?
-Nada não painho...
-É sua mulher, a Joana... Não é?
-É sim... Ela está adoentada, não sabe? Sempre indisposta... Falei que a levaria ao médico, ela chorou e pediu que eu não a levasse... Não quer ser tocada por mãos de ninguém. Se for para morrer, ela prefere esperar... O que eu faço painho?
O velho olhou-o e disse:
-Siga-me que vou orientá-lo e você fará tudo o que eu disser.

          Os dois seguiram até a venda de Seu Lourenço e Seu Teleciano comprou uma cola chamada SUPERBONDER. Firmino não compreendeu o que o pai fazia, mas não disse nada. Aguardou calado.

Depois, o velho entregou ao filho uma pistola e orientou:
-Amanhã, você irá para o trabalho e levará escondido de sua mulher essa pistola junto com a cola, em sua bolsa. Quando você estiver na metade do caminho, volte para casa.
-Painho, o senhor está variando, é? Para que devo fazer isso?
-Sei que é pacato, mas também sei e reconheço o quão esperto é... Deus lhe iluminará e lhe mostrará o que fazer...

          Firmino ouviu àquelas palavras, seu pai falava tão seriamente que não contestou. Jurou para o velho que faria conforme o combinado no dia seguinte.
          No outro dia de manhã, Firmino seguiu para o trabalho. Na metade do caminho retornou para casa e abriu a porta que estava destrancada. Observou que no pequenino sofá havia uma bolsa que não estava ali, quando saíra. Entendeu tudo e sabia exatamente o que fazer e aonde seu pai queria chegar com as palavras faladas no dia anterior. Rapidamente, abriu sua mochila e pegou a arma juntamente com a cola.

          Abriu a porta de seu quarto e surpreendeu Joana oferecendo a seu vizinho Alonso todos os desfrutes que foram negados a ele, por estar “doente”.
Uma dor invadiu o coração do pobre Firmino, que empunhando o revólver forçou a mulher a passar a cola superbonder no...  *“benefício” de Alonso.
Firmino estava tão alterado, que poderia atirar neles a qualquer momento. Joana obedeceu prontamente. Firmino berrou:
-Agora, segure o “benefício” dele... – a mulher obedeceu depressa.

          Em seguida, a casa foi invadida por uma multidão liderada pelo pai de Firmino, que sabia de tudo. Fazia muito tempo que Joana enganava ao marido, que cego de amor, se recusava a acreditar nas evidências.

Seu Teleciano chamou a polícia. Joana saiu de casa humilhada, seminua, segurando o “benefício” de Alonso, que também era casado.
          A mulher perdeu tudo o que tinha inclusive a guarda dos filhos.
Todos os moradores do bairro sabiam do caso de Joana com Alonso, menos Firmino e a esposa do traidor.

          Fazer o quê? Essa era a única maneira de Firmino abrir os olhos. Ele chorou, pois via o grande amor de sua vida partindo para sempre. Seu pai o abraçou:
-Filho, foi melhor assim... Você era muito para ela. Você tem caráter e encontrará outra mulher de igual valor... Isso vai passar...

E não é que passou mesmo?
         Hoje Firmino é velho e vive num sitiozinho ao lado da esposa Maria. Joana nunca mais foi vista por ninguém, não viu os filhos crescerem e simplesmente desapareceu. Alguém a viu há um tempo mendigando numa calçada em uma cidade vizinha...

É por causa dessa história e tantas outras que ouço por aí, que não considero a traição uma alternativa para determinados problemas conjugais.
         A alternativa certa é sentar, conversar e lembrar os bons momentos. Só assim podemos recordar o quão especial é aquela pessoa que está ao nosso lado e entender que no fundo, apesar dos pesares a amamos de verdade.  

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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

13. Crônica: Façamos o que é bom no tempo oportuno!

Você já ouviu esse provérbio??? Trata-se de um provérbio bíblico de Salomão que está na bíblia (Eclesiastes : 11).

Bem... Por esses dias fui visitar uma prima minha, e como não nos víamos há um tempo, colocamos o assunto em dia. Jogamos conversa fora e rimos muito. Uma das coisas que mais gostamos é falar bobagens (eu sei, todas as mulheres gostam), ela me contou algo que chamou a minha atenção, então resolvi escrever essa crônica.

A minha prima Lili é dessas mulheres evangélicas, devotas e com um coração repleto de bondade. Está sempre disposta a ajudar as pessoas.  Não existe problemas no mundo que ela não encontre uma ponta de esperança para se apegar. Quando você diz: “A situação está difícil...” Ela responde:  “ Mas vai melhorar... Ao contrário de mim que, quando você diz: “ A situação está difícil”, eu respondo: “ É... tá mesmo!”

O bairro que ela mora é muito perigoso e isso é mais um motivo para que sua família se apegue a Deus. Lili me contou que, uma noite após o culto, ela e o marido oraram e foram dormir em paz. Tudo estava bem, até que duas horas depois, minha prima escutou um barulho na cozinha. Parecia que alguém abria a porta que – por ironia do destino - eles se esqueceram de trancar.

Lili, assustada, cutucou o marido:
- Carlos, você ouviu isso? – perguntou sonolenta.
- Ouvi sim... O que será? – indagou igualmente preocupado.
- Não sei... Vá lá ver o que é... – opinou minha prima.
- E... Eu? – gaguejou.

Ao perceber que o marido estava mais temeroso do que ela, Lili saiu devagar da cama e cautelosamente seguiu a cozinha. Carlos vinha atrás lhe dando cobertura, afinal algum bandido poderia sair a qualquer momento debaixo da cama, e os atacar pelas costas...

A surpresa foi enorme. O casal deparou-se com um homem caído defronte a pia da cozinha.  Minha prima acendeu a luz e com horror percebeu que o sujeito estava ensanguentado, pois acabara de ser baleado.

Com amor no coração e desejosa que aquela alma se salvasse, Lili aproximou-se, observou que o individuo respirava e aparentemente estava fora de perigo. Ajoelhou-se diante dele e pediu ao marido:

- Mô, traga um travesseiro para mim.
Carlos obedeceu depressa e ela colocou a cabeça do homem em cima do travesseiro  sobre seus joelhos, e começou:

- Olhe moço... Se você entrou em minha casa é porque Deus tem um plano em sua vida...  Tenho certeza que você está andando em más companhias, e acho melhor você parar com isso porque Deus te ama...Blá, blá, blá, blá... – e o homem sangrando.
Apesar da  dor pelo ferimento, notava-se que o sujeito estava aliviado por encontrar-se em segurança. Os seus olhos diziam mais ou menos isso:

 “Depois, essa  bondosa mulher vai chamar a ambulância, vou para o hospital e quando sarar, para casa...”
 Após meia hora, com o tapete encharcado de sangue, finalmente o homem estava evangelizado. Ao pensar que Lili chamaria a ambulância, o pobre coitado teve uma surpresa:

- Moço, agora que você já conhece o lado bom e já sabe do plano de Deus em sua vida, vou chamar a polícia...
O rapaz não esperava aquilo e era possível notar seu desespero através do olhar. Mas... O que fazer? Ele estava completamente imobilizado e devia agradecer a Deus por estar vivo!

- Não moça, por favor, a polícia não! - suplicava o rapaz ensanguentado. Quinze minutos depois, a polícia chegou.
Enquanto o moço era levado para a viatura, minha prima disse:

- Deus te abençoe!
Lili concluiu que do mesmo jeito que entrou um bandido ferido em sua casa, poderia ter entrado um bandido não ferido e fazer horrores com ela e o marido.
- Você vê Quel, como são as coisas? Como nas mínimas coisas Deus está presente? – Lili me perguntou enquanto narrava sua história.

- É mesmo Lili... Mas e o rapaz? Depois de tanto tempo perdendo sangue, ele ainda está vivo? – questionei.
- Claro que não, Quel... Ele saiu da cadeia, mas não deu ouvidos as minhas palavras... Na semana passada os bandidos o mataram... Talvez porque exatamente no dia de sua morte, eu não esqueci a minha porta destrancada!
                                                               

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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

12. Crônica: Entrevista de emprego

(por Raquel Lisboa)


mãe vovó

Tudo começou no momento em que me encontrava em frente ao PC, fazendo algo muito importante, ou seja, acessando o face, quando o telefone tocou. Tratava-se de uma moça solicitando o meu comparecimento em uma agência de empregos no dia seguinte. Pensei:
” Justo agora que eu estava me acostumando a ficar desempregada...”

Como de costume, no outro dia levantei atrasada. Eu sabia que precisava fazer alguma coisa, mas não me lembrava exatamente o que era. “Bem... Levar o lixo na rua, acessar o face, terminar a leitura do livro de Truman Capote, acessar o face, ir à feira, acessar o face, fazer resenha, acessar o face... Putz!!!! A entrevista!!!”

Aprontei-me rapidamente. Eu precisava estar no local às 13:30 e saí de casa às 12:55. Na saída do portão de casa, olhei com certa tristeza o ônibus que eu ia pegar passando... Não tinha jeito, teria de ir a pé mesmo!

Cortei caminho para ganhar tempo. Fazia um calor de quarenta graus e, não sei quanto a você, mas quando estou atrasada e enrolada para fazer qualquer coisa, imprevistos é o que mais acontecem. Por exemplo, além da minha meia calça desfiar por inteiro e eu pisar num cocô de cachorro, encontrei TODOS os conhecidos no trajeto. 

Parece que todo mundo que eu conhecia perdeu o ônibus, só que no sentido contrário, ou seja, eu ia  ao centro da cidade e eles voltavam de lá.
Quando  encontramos pessoas que a muito tempo não víamos, já viu, né? Delicadamente escapei da maioria sem qualquer inconveniência, sempre demonstrando que estava apressada, mas com muita polidez. 

Até que eu encontrei a Dona Cida... Ai, meu Deus! Um ano tem 365 dias e justamente naquele eu haveria de encontrá-la? A Dona Cida é uma senhora que quando eu tinha cinco anos já era velha. Hoje eu tenho 31 anos e ela continua do mesmo jeito. 

Então... O caso é que, por ela ser bem avançada na idade, aposentada e sozinha, quando encontra alguém na rua... Difícil se livrar dela. Eu tenho paciência, porque sei que um dia não muito distante, também serei idosa. Mas... Justo naquele dia?

Fingi que não a vi. Ela me gritou do outro lado da rua: “ Raquelzinhaaaaa!”
Tive que olhar.
Ela perguntou: “ Como você está?”
Eu respondi morrendo de pressa: “ Bem...”

Eu sabia que se devolvesse a pergunta educadamente: “ E a senhora (está bem)”?
Ela responderia: “ Não minha filha... Estou com uma dor que vem das pontas dos pés até a nuca... Já fui ao médico ele disse que...”, porque isso já aconteceu antes.
Então, resolvi ser mais objetiva:

“Estou bem Dona Cida. Até mais!” E segui andando.
Daí, a Dona Cida lembrou-se que precisava voltar para o centro da cidade e aproveitou a minha companhia, naqueles passos lentos, fazendo as perguntas de sempre:
“ Como está a  sua mãe? “

Respondi, tentando apressar os passos: “Bem.”
Quando consegui me afastar, ela prosseguiu em voz alta, quase gritando:
 “Soube que a sua mãe casou novamente...”

A minha mãe se casou pela segunda vez há cinco anos e a Dona Cida sabe muito bem disso!
Respondi a pergunta com um sorriso apenas e quase correndo  consegui escapar da falastrona.
Cheguei ao local da entrevista às 13:28 e estava linda de morrer: suada, meia desfiada e limpando o restinho de cocô de cachorro que grudou no sapato.
Ainda assim, depois de tanto sufoco, a vaga foi minha! Talvez pelo fato de eu ter sido a única candidata a participar da seleção.

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Imagem retirada de: http://br.freepik.com/fotos-gratis/mae-vovo_571664.htm


terça-feira, 15 de outubro de 2013

11. Crônica: A jaqueta

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(por Arabian Manojo)


     Logo nos primeiros dias de aula, estava eu de jaqueta com o zíper aberto, indo na direção da enorme multidão que entraria em um dos vagões do Metrô na estação da Sé. Meu destino: Estação Ana Rosa.

Horário de rush, aquele calor e aperto, metrô lotado, empurra-empurra, quando a campainha soou por pouco não fiquei para o lado de fora. 
    Fui esperta, me apertei, espremi, empurrei e conseguiu entrar, amassada entre as outras pessoas que se acotovelavam por um lugarzinho.

     Bem, finalmente me acomodei grudada na porta. O metrô chegou à primeira estação e muitas pessoas desceram. Agora sim iria para o corredor, ficaria mais folgada e, quem sabe, acharia até um lugar para sentar...

          Mas... Algo deu errado. A jaqueta não se movia, o que teria acontecido?
Claro! Fiquei presa na porta. Está Vendo? Quem mandou desobedecer à ordem do maquinista e entrar depois da campainha soar?
       Não dava para escapar. Quase metade da jaqueta estava para o lado de fora, como um sanduíche. Ah, mas na estação seguinte eu sairia, porque a porta se abriria! Quem dera!
O companheiro inseparável Murphy, aquele sujeitinho da lei, que afirma que "se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará", atacou de novo.  A porta que abriu foi a do outro lado.

        Àquela altura, o ridículo já tinha tomado conta da minha viagem. O metrô bem mais vazio e só a jaqueta preta de pé, ali, grudada na porta.
A cena bizarra se arrastou por mais umas três paradas. E o trem continuou, agora, sentido a estação Ana Rosa onde eu desceria. O desespero já tinha tomado conta da jaqueta. "Será que nessa estação a porta abre desse lado? E agora? E se abrir de novo do lado de lá?”

          Os segundos que me levaram até a estação Ana Rosa pareciam uns 10 minutos. Devagar, o trem foi parando, parando...
Está ai mais uma cena ridícula, algumas pessoas que estavam no vagão foram em direção à porta onde eu estava presa (bom, pelo menos soube que a porta do meu lado abriria, já era alguma coisa, ou melhor, a melhor coisa do dia!). Todos me olhavam e não entendiam nada, o porquê eu estava de frente para eles, grudada na porta que ia abrir em poucos segundos.
          A porta abriu, eu me soltei, me virei e, com uma boa dose de vergonha, sai em direção à faculdade.

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10. Crônica: Peso da culpa

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(por Arabian Manojo)


Sexta-feira às 16 h 30, fui me preparar para ir à faculdade. Tomei banho, lavei os cabelos, me troquei, e às 17 h atendi o telefone que obviamente, tocou.
Eram algumas amigas do meu ex-trabalho, querendo tomar umas cervejas, contar as novidades... Elas não estavam muito bem, inclusive, uma delas não consegue ficar, beijar ou qualquer tipo de aproximação com o sexo oposto e a outra vive brigando com o marido. 

Eu disse que não poderia ir, pois tinha que assistir aula. 
Minhas amigas nem insistiram muito. 
Aceitei o convite, afinal de contas, fazia bastante tempo que não as via. Me senti culpada por isso, mas pensei: "foi por uma boa causa".
18 h 30; O reencontro foi o máximo, nos abraçamos, falamos das novidades, brigas, dificuldades de conseguir um namorado, demos conselhos umas para as outras, enfim, colocamos o papo em dia.

20 h 30; Elas precisaram ir, nos despedimos e mais uma vez me senti culpada por não ter  ido para a faculdade, ainda era tão cedo e eu tive que ir embora...
21 h; A caminho de casa, mais precisamente dentro do trem, meu telefone toca de novo. Dessa vez era alguém em especial. Falamos algumas coisas de costume, como: 

-Tudo bem com você? Como foi sua semana?... 
Até chegar ao ponto G:
-O que vai fazer hoje? - perguntei a ele. 
-Vou vê-la - respondeu. 
Logo, combinamos de nos encontrar.
22 h; Fui para casa dele. Pensei: "Meu Deus, se minha mãe souber que deixei de ir para a faculdade, para beber com as amigas e depois ir pra casa de um cara que mora sozinho, às 10 h da noite, ela vai me matar!" 

Mais uma vez a razão pesou minha consciência. Por que  não fui para a Faculdade?
22 h 15; Nos vimos, conversamos, comemos e namoramos...
0 h 30; Horário que chegaria em casa. Disse a ele que precisava ir embora, porque minha mãe estava me esperando e se soubesse que eu estava com ele, ela  me mataria.  
Ele falou ressentido:
-Minha cama é tão grande para eu dormir sozinho... Fica aqui comigo? Mais uma vez não precisou insistir muito e aceitei.
-Preciso acordar às 8 h da manhã para chegar em casa cedo, direi a minha mãe que não fui para casa porque estava muito tarde. Falarei também que dormi na casa de uma amiga, ok?
1 h 00; Senti uma culpa tão grande que não consegui dormir. Imaginava o que minha mãe estaria pensando. Pensei em ligar. "Não está tarde, amanhã eu explico direitinho".

3 h; Acordei assustada. Onde estou? Olhei para o lado, e soube onde estava. Peguei o celular para ver se não tinha nenhuma ligação da minha mãe, e nada. Tirei outra soneca.
7 h; Acordei desesperada achando que já era quase 11 h da manhã. Me sentia tão culpada de não ir para faculdade e nem ter ido para casa, que não via a hora de chegar logo. Minha mãe poderia estar muito preocupada comigo.

8 h; Me despedi.
8 h 15; Cheguei em casa. A primeira coisa que fiz ao abrir a porta foi chamar pela minha mãe, mas ela não estava lá. Liguei e perguntei onde se encontrava:
 - Ontem algumas amigas me chamaram para ir a uma festa e ainda estou aqui, você pode vir me buscar às onze?
Pensei: "Não acredito! Não dormi direito imaginando que ela estava preocupada, desesperada, sei lá..."
 Mas não, ela estava na balada se divertindo e, o melhor, sem culpa nenhuma.

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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

9. As crianças de hoje são como as de antigamente!


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(por Raquel Lisboa)

          Criança é a razão das nossas muitas alegrias e dos nossos muitos gastos.
Falo isso por experiência própria, pois tenho um bebê de dez anos.
Um dia, há nove anos, conversava com Lady sobre filhos e ri muito das coisas que o dela falava.
          Ela me contou que Marquinhos pediu um presente de natal:
-Manhêêê! Já sei o que pedirei para o Papai Noel...
-Olhe meu filho, serei objetiva. Seu pai e eu estamos reformando nossa casa, ou seja, o Papai Noel está endividado... Então, faça uma listinha com três presentinhos básicos, aquele que for mais em conta será seu.
         O garotinho saiu contente... Dez minutos depois, apareceu todo sorridente:
-Prontinho! Já fiz a lista...
Lady pegou o papel das mãos do garoto e leu. Estava escrito assim:
1.    Um computador
2.    Um Playstation
3.    Um celular (naquela época, celular era caro que só!)
A mãe olhou-o desconcertada, e falou:
-Meu filho, infelizmente não será possível lhe dar nenhum presente dessa lista... Papai Noel está apertado.
-O que o Papai Noel vai me dar, então?
-Um tênis.
-Manhêêê! Se o Papai Noel me der um tênis, vou contar para a minha avó o que você e meu pai fazem enquanto durmo...
  Lady ficou vermelha:
-O que a gente faz, Marquinhos? – perguntou com o coração acelerado.
- Faz coisas feias que Deus não gosta... Você quer mesmo que eu diga?
(Por isso que nunca deixei meu filho dormir no mesmo quarto que eu).
  Os pequenos podem até não ver o que os pais fazem de "errado", mas aprendem muito com a televisão e sabem coisas que até a gente duvida. Além do mais, são extremamente CHANTAGISTAS, INTELIGENTES e conhecem o ponto fraco dos pais.
No final das contas, Lady comprou o Playstation em suaves parcelas e Marquinhos passou a dormir todas as noites em seu quarto.
         Nove anos depois, a história se repete. Agora é o João Victor que me pede um presente de Natal:
-Mamãe, já sei o que quero ganhar de presente...
-João Victor, nós estamos construindo e Papai Noel está apertado. – respondi.
-Eu sei, Mamãe... Sou muito bonzinho. Por isso, preparei uma listinha das coisas que quero ganhar, daí você me dá o que for mais baratinho  – falou isso ao me entregar um papelzinho:
Pensei: “Que bonitinho meu filho é... Tão diferente de tantas crianças, que...”
Meus pensamentos se interromperam quando li o papel:
1. Uma TV LCD 60 Polegadas
2. Um notebook APPLE.
3. UM X-BOX
Olhei-o irritada e respondi devolvendo a lista:
-Contente-se com um tênis.
          O menino relutou, enquanto roía as unhas:
-Sabe Mamãe, esses dias na escola, a professora pegou o Pedrinho e a Jackizinha trancados no banheiro, fazendo coisas que Deus não gosta.
(Não sou boba e sei bem quando meu filho quer me chantagear).
          Fui até o guarda roupa e peguei uma cinta. Depois, perguntei:
- O que foi mesmo que seus amiguinhos faziam no banheiro do colégio?
Ele respondeu apreensivo, imaginando por qual motivo seu plano falhara:
-Co...co...comeram o sa.. sa... salgadinho do Luiz, escondido... – depois, estalou-me um beijo na testa e continuou:
- Sabe Mamãe, um tênis novo é tudo o que mais queria ganhar - e saiu correndo a procura de amiguinhos.
         Com a cinta na mão, sorri, ao me recordar do que Lady me contou anos antes.
          Conclui que o tempo passa, mas no fundo, as crianças são todas iguais.

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8. A menina manicure maluquinha!


(por Raquel Lisboa)

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(por Raquel Lisboa)



unha polonêsQuem é tio ou tia sabe que sobrinhos são os nossos segundos
 filhos, até porque eles fazem tudo o que não é para fazer, são 
rebeldes, mas... enchem o nosso coração de alegria.
Bem... Sou filha única, nunca terei oportunidade de ter sobrinhos 
legítimos, mas em compensação casei-me com um homem 
que tem dez irmãos (os meus sogros não tinham TV em casa!), 
que também casaram e tiveram filhos. Imagine então quantos 
sobrinhos se reúnem na casa da minha sogra aos fins de semana?
Muitos... Sem contar que esses sobrinhos também se casaram e 
tiveram mais sobrinhos (filhos)... E por aí vai...
Em meio a tanta “sobrinhada” sempre tem o mais quietinho, o mais
 inteligente, o mais bagunceiro, o mais amoroso... 
Os pequeninos, que são uma graça, e os adolescentes, que são um 
problema...
Tenho uma sobrinha chamada Gisele que tem sete anos, agora. 
Trata-se de uma criança franzina e amarela e, tão fraquinha, que seus cabelos não cresciam
(depois de muito tempo descobrimos que eles não cresciam porque ela mesma os cortava).
O que ela tem de fragilidade tem de pentelha. Quando tinha quatro anos cortou a colcha
 novinha da cama do meu filho com uma tesoura, furou o sofá da avó, enfim... 
Mas quem mais sofria com as suas reinações era o Frajola, o gato da família. 
Imagine que um dia ela guardou – o dentro de uma mochila...  Eu percebi, ralhei com ela 
que tirou o bichano rapidamente.
O pobrezinho estava tão cansado – talvez pelo fato de ficar sem ar – que ela aproveitou-se 
para cortar suas unhas e pintá-las, pois uma de suas brincadeiras favoritas era brincar de 
manicure. O gatinho era pequeno quando isso aconteceu e nem pôde se defender. 
Todos ralhavam com ela ao perceber o que estava aprontando, e a garota 
endiabrada parava por alguns instantes, mas num descuido lá estava a Gi fazendo a mesma 
arte. Nessa brincadeira, 
as unhas do Frajola foram pintadas e cortadas e o bichinho ficou com as patinhas doloridas... 
Dava pena de olhar para ele, porque imaginávamos a dor que o coitadinho estava sentindo.
O tempo passou e um dia, cansada de brincar e fazer as mesmas estripulias, 
a Gi lembrou-se  do Frajola, afinal já fazia alguns meses que as unhas do gatinho 
não eram cortadas.
 Imagino que ela pensou: “Por que não ‘fazer as unhas’ dele?”
O fato é que os bichos crescem mais rápido do que a gente e, como o Frajola já era 
“grandinho” a Gi levou muitos arranhões e mordidas do bichano que ficou furioso com a 
investida da garota... Ele tinha seus motivos para irritar-se afinal de contas, ele era um gato 
e não uma gata. Não ficaria nada bem, sair por aí com as unhas pintadas... O que os seus 
amigos gatos, pensariam?
Eu, de longe, observava a choradeira da pobre criança e pensava com meus botões: 
(Bem feito!). A mãe da menina ao perceber os arranhões foi acudi-la e eu fingi que estava
 preocupada com a pobrezinha. Porém, o que mais me chamou a atenção foi 
a maneira que a Gi encontrou para ofender o Frajola, depois do ocorrido:
- Seu trouxo! Idioto! Seu besto!
O que no primeiro momento foi alvo de apreensão tornou-se hilário, e todos os
 presentes caíram na gargalhada.
Faz algum tempo que isso aconteceu. Esses dias a vi com um vidrinho de esmalte pintando 
as unhas de suas bonecas. Não perdi a oportunidade e perguntei:
- Não vai mais pintar as unhas do Frajola, Gi?
A garota respondeu prontamente:
- Não! O Frajola é um cliente muito mal agradecido!
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terça-feira, 9 de julho de 2013

7. Crônica: O meu nome é Apelido

(por Raquel Lisboa)

           Eu não sei quanto a você, mas eu particularmente não gostava de apelidos até compreende-los melhor. Explicarei o motivo. Existem apelidos que é a redução do nome e torna-se até mesmo uma maneira carinhosa de tratamento. Ex: Alexandra = Xanda; Roberto=Beto; Gabriela=Gabi; etc.
          Minha mãe me chama de Quel e quando me trata pelo meu nome, minhas pernas tremem, minhas mãos transpiram e me dá uma batedeira danada no coração.
          Tudo bem que sou grandinha, mas para a minha mãe dar bronca não tem idade. Confesso que quando era criança era melhor, porque levava umas palmadas, chorava um pouquinho e tudo se resolvia.
         Agora, depois de adulta, minha mãe somente fala... E fala... E fala... E garanto-lhe que quando começa o sermão, não tem hora para acabar. Esse é o primeiro motivo pelo qual não gostava de apelidos.
          O segundo é porque dependendo do dito cujo, me confundo toda. Vou explicar.
Um dia, quando chegava do trabalho, encontrei um conhecido de meu marido na rua, que falou:
-Raquel, pede para o seu marido me ligar... Ele tem o meu número.
Respondi:
-Tudo bem. Darei o recado.
Ao chegar, escrevi um bilhete e pendurei na  porta da geladeira:
"AMOR, LIGUE PARA O GAIVOTA"
  Meu marido chegou do serviço e perguntou:
-Quem é Gaivota?
-Como assim, você não sabe? Seu amigo... - argumentei estressada.
-Meu bem, desculpe-me, mas não tenho nenhum amigo com esse nome - afirmou meu marido.
-Tem sim, e não queira saber mais do que eu. - relutei.
-Não tenho não - falava ele.
-Tem sim - dizia eu.
         Iniciou-se uma discussão e só faltava a gente tirar cara ou coroa para resolver aquela situação. Até que o meu marido teve uma ideia e a colocou em prática:
-Raquel, diga-me, como é esse homem?
-Bem... O Gaivota é alto, tem as pernas finas e um narigão cumprido... - descrevi.
-Já sei! - exclamou sorrindo.
-Viu só, como você tem um amigo chamado Gaivota? Depois quer saber mais do que eu... - respondi, vitoriosa.
-Acontece que ele é chamado  de Garça e não de Gaivota... - explicou sorrindo.
Olhei-o seriamente (detesto quando estou errada) e argumentei:
-Garça ou Gaivota, é espécie de ave, não é? Então é tudo farinha do mesmo saco. O nome dele é Gaivota, e pronto!
           Outro dia aconteceu a mesma coisa. Um homem pediu para eu mandar lembranças para o meu marido:
-Amor, você sabe quem eu vi? - indaguei.
-Quem?
-O Noel... Ele mandou-lhe lembranças. - respondi.
Meu marido ficou pensativo:
-Noel, Noel, Noel... Não conheço nenhum Noel...
-Claro que conhece... O pai da Maricélia, da Maria, da Marinês, da Marineide...
-Ah, sei... Não seria o Natal?
Bem, não se pode acertar todas, não é?
        Foi aí que fiquei completamente inconformada com apelidos. Até que cerca de um mês, perguntei para um outro colega do meu bofe:
-Neco, me responde uma coisa?
-Pode falar...
-Qual é o seu nome verdadeiro? Sabe, não gosto de apelidos e a partir de agora só tratarei as pessoas pelos seus respectivos nomes.
-Ah, não vou dizer - respondeu encabulado.
-Por favor, me diga... - repliquei.
Ele tirou o RG da carteira e mostrou-me: ARARAQUIDES DEMÉTRIUS. Não ri para não ficar chato, mas fiquei completamente desconcertada. Sem saber o que dizer, comentei:
-Belo nome.
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